
Estação primavera
(Carlos Queiroz Telles)
Esta não é a plataforma de embarque
Porque a viagem começa bem antes,
Mas é a primeira estação de passagem
Para a descoberta final de si mesmo.
Não há bilhete que indique o destino,
Nem placa, nem guia, nem mão, nem ensino.
A estrada exige somente coragem,
Difícil traçado do próprio caminho.
O tempo é de sobra e a existência contínua.
Espelhos não mostram o percurso dos anos.
O prazer da aventura e a paixão pela vida
Sustentam ilusões e compensam enganos.
Para o corpo entregue à emoção timoneira
O horizonte mais amplo é frágil fronteira.
Tudo é passível de um gesto mais longe.
Tudo é possível de um novo começo.
O vento de popa estilhaça correntes:
Antigas amarras de afagos paternos,
Trilhas seguras em mapas eternos,
Palavras visíveis ao som de um olhar.
Nada resiste à invenção do momento.
Ser é um saber que respira no peito.
Dor é o sabor de um encanto desfeito.
Amar é saber o sabor de um cheiro.
A alegria se colhe na mão companheira,
A solidão se semeia à beira do amor.

